dezembro 03, 2004

Há dias

em que a vida recomeça do zero.
Dormimos, apagamos o que antes estava. Hoje, é um desses dias.
Se houve muito trabalho e o dia se fez muito completo, a pausa traz o novo. Repousam-se horas cheias, mágoas, suspeitas de doença, dorme-se por esgotamento puro, sobre o assunto. Entretanto, ou se regressa à vida ou nos acordam com uma chamada, ou o relógio biológico nos traz à fome.
Independentemente da forma de acordar, dos afazeres, do que ficou por resolver, estamos de novo no mundo. Casaco vestido, chapéu protegendo do frio orelhas atentas a variações de temperatura, sapatos de caminhar, saímos. A cidade - qualquer cidade - respira sozinha, ritma-se por si, independentemente dos habitantes que tem, dos que circulam ou se recolheram, da variabilidade do tempo atmosférico, do nível de sujidade das ruas.
Aprovisiona-se a carteira, sorri-se aos tatuadores profissinais que fumam numa janela, inusitadamente ávidos de oxigénio, a monte, gastos, eles próprios mostruários dos serviços que prestam, cabelos em amálgamas definitivamente impenetráveis, perfurados por piercings exaustivos.
Observa-se mais um cão esfomeado - muitas vezes é o quarto, sexto, dessse dia, tirando os atropelados - que procura comida em contentores. Um ou outro passante, espera-se não ser assaltado.
No lar de luxo, entre soturnas luzinhas de natal, o olhar de um velho, baço, despedida lenta, segue-nos o percurso, deseja-nos a idade, o percurso no andar, ter lugares onde ir.
Entra-se no café dos intelectuais, onde um grupo ouve, estafado, uma tipa de voz arranhada que debita lugares-comuns sobre "amores incondicionais", verdades absolutas, usa termos de psicologia, dá-se uns ares que disfarçam o mau penteado, a péssima maquilhagem. Fuma mais um cigarro, mais uma conversa vazia. Os homens do grupo dispersaram, já, entregam-se ao verdadeiro intelecto, jogam xadrez, cerebrais. Duas amigas ouvem, fingindo interesse. A mulher não se cala? Debita "experiência de vida", por oposição(supostamente?) à de tubos de ensaio, e nós que pensávamos que eles eram meros fósseis, os outros todos que no mundo vivem. Ela pensa, senhores! Ou diz que o faz...
Paga-se. Sorri-se ao jovem ameno e paz-com-a-vida que atende. Gaba-se o galão que nos soube bem, estende-se um "Até amanhã, se Deus quiser". Sai-se para a noite.
Dali a quinze, vinte minutos, a mesma mulher de voz mal colocada continuará "mas tu sabes, tu sabes..." parafraseando Prévert - talvez sem o saber, que sabe ela? - a debitar verdades sobre "perder essa pessoa", uma vez que não pode deixar de ouvir-se, pénible (ela ama ouvir-se!), o braço em riste, olhos semicerrados, cigarro ao alto.
A noite decorrerá. O velho na janela ter-se-á retirado, ciente de que, para ele, não haverá mais tertúlias onde mulheres perdem tempo e se perdem de homens que se perdem por outras.
Os cães de toda a história continuarão afocinhando-se em contentores do lixo, alheios às nossas vaidadezinhas em público.
Uma noiva envergará, talvez, o vestido vermelho que se viu na montra.
Os milénios cobrirão a cidade.
O silêncio virá a imperar sobre todas as coisas e, até ser uma velha na janela sem quaisquer verdades absolutas nem amigos cansados em volta, a menina enfatuada cederá ao peso das coisas. Ao peso verdadeiro que têm todas as coisas quando de entre todas só sobra uma única: tempo a conta gotas, em doses homeopáticas...

Disseram-lhe:

é hoje. Sentou-se, esperou no corredor. Anódino, o médico girou sobre os calcanhares, chegou deslocando uma massa de ar frio, asséptico, estendeu-lhe a mão:
«- É maligno... Como vai ser, então?...»
Odiou mais o médico do que o cancro que lhe comia as células, insidiosos ambos. Cuspiu no médico, cuspiu no dom que lhe tiravam às mancheias, cuspiu na previsibilidade. Limitou-se a entrar no carro e a voltar a casa. Logo se vê. Hoje, já tinha planos feitos, sigo-os. À noite, logo se vê...

...

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Resultará, isto?
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